Florbela Espanca
(1894-1930)
Poetisa Portuguesa.
Minha Culpa
Sei lá! Sei
lá! Eu Sei lá’ bem
Quem sou? Um fogo-fatuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém
Como a sorte: hoje aqui,
depois alem!
Sei la’ quem sou? Sei la’! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!…
Sou um verme que um dia
quis ser astro…
Uma estatua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor…
Sei lá quem sou?!
Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador…
Seus versos de aparência parnasiana expressam um erotismo e uma liberdade pioneiros na poesia de seu país.
Poetisa de um lirismo fortemente marcado por
sua terra, Florbela Espanca pôs em versos de aparência
parnasiana o erotismo e a liberdade que expressou e assumiu
pioneiramente, na obra como na vida.
Florbela de Alma da Conceição Espanca nasceu
em Vila Viçosa, no Alto Alentejo, em 8 de dezembro de
1894. Como seu irmão Apeles, era filha
ilegítima e cresceu na charneca, espécie de caatinga
alentejana. Em 1908 a família se mudou para Lisboa: quando
publicou o Livro de mágoas (1919), a poetisa já
estava casada e cursando direito. Instável, casou-se mais
duas vezes e, em correspondência de sentido ainda controverso
com o irmão, parece distingui-lo como sua paixão mais
verdadeira. Apeles, que se tornara aviador, desesperou-se com a
morte de uma namorada e mergulhou em picada no Tejo.
Na poesia de Florbela Espanca, que se reafirma no Livro de
sóror Saudade (1923) e sobretudo em Charneca em flor (1930),
a efusão lírica é de sensualidade luminosa e
ousada para a época. Sonetista excelente, Florbela expressa
suas emoções em linguagem telúrica, de imagens
fortes, impregnadas de verdade física e arrebatamento.
Apresenta, como Sá-Carneiro, uma nostalgia da realeza e da
pompa que é a um tempo pessoal e coletiva, como se Portugal
se exprimisse em sua voz. Florbela Espanca se matou em Matosinhos,
em seu 36º aniversário, 8 de dezembro de
1930.
©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
Interrogação
Neste tormento
inútil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.
Ó alma da
charneca sacrossanta,
Irmã da alma rútila que eu tenho,
Dize para onde eu vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!
Visões de mundos
novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!
Dize que mão
é esta que me arrasta?
Nódoa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!
Homenagem do
Espaço Cultural Casa do Fernando












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