O equívoco comum, bastante praticado, ao se abordar a questão do racismo no
Brasil é o de compreendê-lo como igual ou similar ao de países com outras
histórias e tradições. A eterna comparação com os EUA, outro gigante territorial e
populacional do Novo Mundo, fez com que muitos relativizassem ou negassem a
existência de racismo no Brasil, ao contrário de entendê-lo dentro de suas especificidades.
De modo mais raro, a comparação com o finado apartheid sul-africano colocou o mesmo
país, para os mais incautos, como pátria da tolerância racial.
Luís Carlos Lopes
A mulher trabalhadora é o negro de saias
No final da
década de 80, a mulher recebia 54% do salário
homem.
Significa dizer que, no mercado de trabalho, duas mulheres valiam
pouco mais do que um homem.
Melhorou: hoje, são 65%. Ou seja, aproximadamente uma mulher
e meia equivalem a um homem.
Até mesmo nas profissões mais bem remuneradas, com
exigência de diploma de ensino superior, ambientes
supostamente mais arejados, a defasagem é expressiva. Mais
precisamente, segundo Dieese/Seade, 30%.
Nesse 1º de Maio do milênio, a ser comemorado
amanhã, a situação da mulher é um
símbolo da discriminação no trabalho,
refletindo os valores e preconceitos de uma sociedade.
Se, no Brasil, o trabalhador, apesar de todos os avanços,
ganha, no geral, mal, está cercado pelo desemprego e
subemprego, desfruta de uma indigente rede de
proteção social, os grupos vulneráveis
são ainda mais pisoteados.
Pela medida dos salários, a mulher, apesar de ter, hoje,
escolaridade mais elevada do que os homens, é ainda vista
como um ser inferior. Exatamente como os negros.
*
O Brasil gosta de se imaginar uma nação sem racismo.
Não é o que mostram os números do mercado de
trabalho, a verdadeira prova de quem é valorizado ou
não numa sociedade, via salário ou nível de
emprego.
Com olho nas questões de gênero e raça, o
Dieese analisou os salários e nível de emprego das
cinco regiões metropolitanas do país, além do
Distrito Federal ( São Paulo, Salvador, Recife, Belo
Horizonte e Porto Alegre).
A maior taxa de desemprego ocorreu em Salvador, apresentada como a
capital do orgulho negro: 45% maior do que a dos brancos.
São Paulo não fica muito longe: 41%. Melhor
posição está Distrito Federal: 17%.
Tradução: é mais provável um negro do
que um branco ficar desempregado, mesmo que tenha o mesmo
nível de escolaridade.
*
Quando se analisam os rendimentos, vemos como o negro se aproxima
da discriminação contra a mulher.
De acordo com o Dieese, o salário médio de um negro
é, em São Paulo, aproximadamente R$ 510. Os brancos
ganham nada menos do que o dobro.
Em essência, para o mercado de trabalho dois negros valem um
branco.
Na lógica da fragilidade, a hierarquia coloca no topo, pela
ordem, homem e mulher brancos e, depois, homem e mulher
negros.
A mulher negra sofre, portanto, por ser mulher e por ser negra. Uma
mulher negra, em São Paulo, ganha por mês R$
400.
Na fria tradução comercial, duas e meia mulheres
negras equivalem a um homem branco.
*
Esses números da discriminação ajudam a
entender uma das mais devastadoras chagas nacionais: a má
distribuição de renda.
Estatísticas internacionais costumam colocar o Brasil como
um dos campeões em má distribuição de
renda. Os economistas debatem sobre as várias razões
para a vitória brasileira nesse campeonato como, por
exemplo, a inflação que corroeu os salários, a
baixa escolaridade, o modelo de industrialização, a
incompetência dos investimentos sociais dos governos, o
auxilio aos mais ricos com dinheiro público, e assim por
diante.
Em maior ou menor grau, todos esses fatores devem mesmo
pesar.
Pouco se comenta, porém, sobre o fator preconceito como um
dos geradores do ciclo vicioso da miséria e, portanto, da
má distribuição de renda.
Obviedade: se somarmos mulheres e negros temos a imensa maioria da
população brasileira.
Logo, se eles são discriminados no salário e emprego,
acabam por afetar a distribuição de renda.
*
Se pouco conseguimos avançar em proteção
social do trabalhador no Brasil, conseguimos menos ainda nas
categorias mais vulneráveis como negros, mulheres e,
especialmente, crianças.
Melhor prova dessa falta de proteção foi o censo
escolar, divulgado semana passada, pela Folha Online: apenas 2%
(repetindo, 2%) das escolas públicas têm acesso
à Internet.
É na escola pública onde se nutre a
discriminação que vai perdurar por toda a
vida.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/gilberto/gd300400.htm
20 de Novembro
Dia Nacional da Consciência Negra












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