Dia das mães
toda quinta-feira
"O mundo
melhor virá quando as oportunidades
forem mais bem repartidas, quando o mundo não for de
poucos."
Hebe de Bonafini
preside
a Associação das Mães da Praça de Maio.
É reitora da Universidad Popular de las Madres.
Fundada em outubro passado,
a universidade tem 500 alunos em cinco cursos:
Psicologia Social, Jornalismo Investigativo,
Economia Política, Artes e Direitos Humanos.
Na Argentina, o Dia das Mães
é em outubro. Hebe de Bonafini já não pode
mais reunir a prole para comemorar a data. Na ausência dos
três filhos, desaparecidos políticos, ela se junta
semanalmente a outras 450 mães. Não é para
trocar presentes. Faz 24 anos que aguardam por justiça.
À procura de jovens que levem adiante esse
ideal,
acabam de
abrir uma universidade.
Elas percorreram delegacias, rádios e hospitais. Tudo que uma mãe desesperada à procura do filho é capaz de fazer, elas fizeram. E nada, nem sinal. Cansadas de bater de porta em porta, resolveram recorrer ao presidente. Naquele 30 de abril de 1977, isso era puro atrevimento. A Argentina vivia sob a ditadura militar (1976-1983) de Jorge Videla. No início, ninguém deu bola. Eram apenas 14 mães com cartazes e fotos dos filhos que desapareceram por se opor ao regime. Antes do final do ano, 70 mulheres já pressionavam o governo a assumir a responsabilidade pelos desaparecimentos. Foi como se abraçassem a causa dos filhos. A partir daí, passaram a ser recebidas a golpes de cassetete em suas manifestações. Impedidas de se reunir na Praça de Maio, elas resolveram circular o dia todo pela praça para fugir das bordoadas. Nessa época, para serem reconhecidas, começaram a vestir o "pañuelo", lenço branco que serve de símbolo internacional de sua resistência pacífica. O primeiro tecido amarrado ao queixo era o de uma fralda do filho, guardada como lembrança.Em dezembro de 1977, Azucena Villaflor de Vicenti, a primeira líder das mães, foi raptada e morta. Mas ameaças de prisão, morte e o seqüestro das mais aguerridas não foram capazes de detê-las. Em 1988, eram chamadas de "loucas" porque insistiam em ir à praça, mesmo sabendo que seriam todas presas. Em outro ato controvertido, "socializaram a maternidade". Como que se tivessem adotado os 30 mil desaparecidos durante a ditadura, daquele momento em diante elas protestariam com fotos, pouco importando se eram de seus parentes. O sentimento de desamparo, perda e impunidade as uniu em definitivo. Tanto que, até hoje, toda quinta-feira, elas têm encontro marcado no coração de Buenos Aires. Estrategicamente, se aglomeram em frente à Casa Rosada, sede do governo argentino. Às três e meia da tarde em ponto, dão início a um ritual que se repete há 24 anos. Caminham em volta da praça por 30 minutos no mais absoluto silêncio para, em seguida, pronunciar ao microfone um discurso inflamado e cheio de denúncias de violações dos direitos humanos.Quando vão à praça, crêem poder entrar em contato espiritual com os filhos. Mesmo sabendo que a maior parte dos opositores era arremessada de um avião no Rio da Prata, elas continuam à procura. Também buscam seus netos, os filhos dos desaparecidos, a quem a ditadura deu nova identidade e uma nova família. Graças a seu trabalho, também se descobriu que as ditaduras latino-americanas colaboravam entre si, na operação Condor.O governo argentino já lhes ofereceu uma indenização de US$ 250 mil por desaparecido. Elas recusam. Negam-se a reconhecer a morte dos filhos. "Um revolucionário permanece vivo dentro de nós", dizem. Hoje elas têm entre 70 e 88 anos e, muitas delas, são "avuelas" (avós). Preocupadas deixar algum legado às novas gerações, resolveram abrir, em outubro passado, a Universidad Popular de las Madres. Nos cinco cursos, a disciplina sobre a história da associação é obrigatória. Para levantar a verba para criar os cursos, organizaram sete concertos — um deles do U2, com suas letras de protesto — e gravaram um CD.
Durante o Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio, Hebe de Bonafini esteve no Brasil e recebeu o Educacional para falar da associação que preside e da universidade da qual é reitora.
EnTrEviStA
O que é a Associação das Mães da Praça de Maio?
É uma
associação constituída por mães que
têm filhos desaparecidos. Temos duas mil mães
associadas — 450 delas em atividade — entre 70 e 88
anos. Funcionamos já há 24 anos. Começamos
buscando nossos filhos e agora estamos buscando justiça,
que, como os nossos filhos, está desaparecida. Porém,
nós não queremos apenas nossos filhos e
justiça. Estamos também trabalhando para a
formação política dos jovens, para que amem o
saber, para que se comprometam e, juntos, possamos fazer um mundo
melhor.
Como construir um mundo melhor?
Lutando, manifestando-se nas
ruas, nas praças. As praças e as ruas têm que
ser nossas. A Terra tem que ser nossa. O mundo melhor virá
quando as oportunidades forem mais bem repartidas, quando o mundo
não for de poucos. E creio que está em nossas
mãos, nas mãos dos povos, levantar com
dignidade.
O que acontece nas reuniões de quinta-feira na Praça de Maio?
Primeiro, entramos na
praça, onde realmente sentimos que nos encontramos com
nossos filhos, em um milagre de ressurreição. Em
seguida, caminhamos em silêncio por meia hora —
mães, amigos e jovens — e fazemos um discurso em
frente à casa do governo para dizermos o que se passa
naquele momento, porque há estupros, seqüestros, mortes
nos presídios e muitas violações aos direitos
humanos no país. Dessa forma, toda quinta, há motivos
para falar.
Gostaria que a senhora falasse um pouco de sua história pessoal e por que entrou nessa associação?
Entrei porque tenho filhos
desaparecidos. Ainda me faltam três filhos. Estou na
associação desde o primeiro momento. Bem, a minha
história é a história de muitas mães
argentinas. Somos mães que socializaram a maternidade,
mães de um único solo, mães de 30 mil
desaparecidos.
Segundo as estimativas de sua associação, quantas crianças na Argentina vivem com pais não biológicos?
Há mais de 500
crianças vivendo com outras famílias, porém
agora muitas delas são adultas e devem escolher com quem
querem ficar. Não estamos de acordo em pressioná-las
ou exigir que voltem para suas
famílias.
Graças ao trabalho da Associação das Mães da Praça de Maio, quantas crianças já conseguiram localizar sua verdadeira família?
Vivendo permanentemente com
suas famílias, 24. As demais vivem um pouco com cada
família.
O que têm em comum essas 500 crianças que foram separadas de duas mães. O que aconteceu a elas?
Quando seqüestravam
nossos filhos, eles eliminavam nossas famílias, as mulheres,
as mulheres grávidas. Eles destruíam todos os nossos
projetos, toda a nossa casa, a nossa família. O resultado
é que há mais de 30 mil desaparecidos, mais de 15 mil
fuzilados, 1,5 milhão de pessoas no exílio.
Não se pode mais falar em crianças, são
adultos agora.
E como acabar com essa impunidade?
Para acabar com a impunidade
é preciso organização. Há que se
organizar, pelejar e lutar. Não importa quantos anos leve,
os anos que serão necessários. Haverá
mães, filhos, jovens, haverá outras pessoas. O
importante é começar essa luta e não parar,
não calar e não desistir. E não é pouco
o trabalho que fazemos. Ele é permanente, é um
trabalho de todas as horas, de todos os
minutos.
A propósito, a Associação das Mães da Praça de Maio acaba de fundar sua própria universidade, justamente com o objetivo de formar jovens para lutar pelos direitos humanos. Como é essa universidade?
São 1.200 alunos nas
melhores carreiras, com os melhores professores. É um
esforço impressionante, mas estamos muito contentes porque
tem correspondido aos desejos dos alunos e professores. É
uma universidade em que os alunos aplaudem as aulas dos
professores! Eles nos dizem: "Nunca me aplaudiram em outras
universidade, mas aqui, sim."
É uma universidade diferente. Não pedimos
permissão a ninguém para abri-la, nem ao
Ministério da Educação. Nós a abrimos
por direito próprio. Não queremos que o governo
avalie os diplomas porque tem assassinos ao seu lado, não os
condena e mata de fome o seu povo. Portanto, não tem
autoridade moral para assinar nenhum diploma. Os povos precisam
aprender que têm esse direito. É uma universidade
totalmente livre e combativa.
E os direitos humanos na América Latina?
São violados
permanentemente cada vez que se fala em globalização,
cada vez que se falam coisas que não colam ou para nos
enganar. Cada vez há mais mortes em nossos países. E
não é preciso mais tantas balas para matar: mata-se
pela fome, pela falta de trabalho, pela falta de saúde e
habitação, pelo desespero. Os novos "desaparecidos"
desse sistema são os desempregados.
Vitor Casimiro
Exclusivo para o Educacional
Fonte
http://www.educacional.com.br/entrevistas/entrevista0061.asp













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